sexta-feira, 8 de março de 2013

PRECONCEITO LINGUÍSTICO EM MOÇAMBIQUE

Os artigos que se seguem foram extraídos no jornal "Notícias"(dias 8 e 9 de março 2013). São da autoria do Docente e eticista Salomão Vicente Matosse. Relatam casos de "desvios à norma padrão europeia" e não toleram nenhuma variação. É importante sublinhar que as línguas não são entidades prontas nem estáticas. Elas variam e mudam tendo em conta as variáveis linguísticas e sociais, fato que não é tolerado nestes artigos. A gramática nunca reflectiu a realidade linguística de um grupo social. Ela é fruto de manipulação, quer dizer é artificial pois ninguém usa as normas gramaticais a 100% na sua fala cotidiana. Mesmo em Portugal não se fala a língua da mesma forma. Alguma vez ouviram como os açorianos e os madeirenses falam?´No Brasil, por exemplo já ouviram um são paulino, um caipira quando fala? Mesmo as Línguas Bantu que falamos em Moçambique não são homogéneas. Pois é. É uma característica normal de todas as línguas do mundo pois, elas seguem as variáveis sociais. Por isso que Labov (2008) sustenta que a língua é um produto social e assim, é muito inapropriado estudá-la fora do contexto social. vejamos agora, o que dizem os artigos:

Erros que cometemos ao falar português 1
"É bom! Digo, é muitíssimo gratificante ver que entre professores de português e, ou amantes desta língua de Camões, há pessoas que rasgam a cortina do conformismo e aparecem para ajudar aqueles que tenham dificuldades linguísticas." (Matosse, 8 de março 2013).

Erros que cometemos ao falar português 2
Frequentemente, oiço professores de português, talvez por gravíssima distracção, a dizer aos seus alunos, ainda que com algum carinho: *Meus meninos, abrem vossos cadernos. Análise: esta frase não se enquadra em nenhum dos tipos de frase, que certamente o leitor terá aprendido: declarativo, exclamativo, interrogativo e imperativo. Sem dúvida, à primeira análise, parece-nos adequar-se ao imperativo. (Matosse, 9 de março 2013).

Depois dessas leituras lembramos a firmação do linguista brasileiro, Marcos Bagno que diz "Nada na língua é por acaso". Os linguistas abaixo mencionados explicam de forma exaustiva algumas caraterísticas do Português de Moçambique. A língua Portuguesa falada em Moçambique é dos moçambicanos e reflete a realidade moçambicana. As variações e mudanças se verificam a nível lexical, fonético-fonológico, sintático, morfológico, semântico e pragmático.  Matosse (nos seus artigos) relata que esses erros são cometidos por muitas pessoas incluindo professores em sala de aulas. Ficamos felizes (nós pesquisadores da língua) ao saber que a variante moçambicana tende a se generalizar. É que as mudanças linguísticas não avisam. Elas aparecem simplesmente.Por isso que é importante estudarmos a variante moçambicana para que possamos diminuir as reprovações em massa que ainda aterrorizam os alunos. A criação de instrumentos do tipo dicionários e gramáticas diminuiria esse preconceito linguístico que afeta até intelectuais moçambicanos. Os alunos e os professores não falam errado, mas sim só falam diferente da variante europeia. Abaixo "Maria Relva!"*

Bibliografia abaixo descreve as caraterísticas do Português de Moçambique:

DIAS, H.  N. Português moçambicano: Estudos e reflexões. Maputo: Imprensa universitária, 2009.
DIAS, H.  N.  Minidicionário de Moçambicanismos. Maputo: Imprensa Universitária, 2002b.
DIAS, H.  N. A norma padrão e as mudanças linguísticas na Língua Portuguesa nos meios de comunicação de massas em Moçambique. In ___.(org.) Português Moçambicano: Estudos e reflexões. Maputo: Imprensa Universitária, 2009b.
DIAS, H.  N.  Análise de erros da preposição. In ___.(org.) Português Moçambicano: Estudos e reflexões. Maputo: Imprensa Universitária, 2009b.
DIAS, H.  N.  As desigualdades sociolinguísticas e o fracasso escolar em direção a uma prática linguística escolar libertadora. Maputo: Promédia, 2002a.
DIAS, H.  N.  Língua e mudanças sociais - Algumas reflexões sobre o caso de Moçambique. In Revista Internacional de Língua Portuguesa. Lisboa: AULP. Março 1993. pp. 96-100.
DIAS, H.  N. Os empréstimos lexicais das línguas bantu no português. in Actas do Simpósio Nacional sobre Língua Portuguesa em África. Lisboa: Escola Superior de Santarém. 1991.
DIAS, H.  N.  Saberes docentes e formação de professores na diversidade cultural. Maputo: Imprensa Universitária, 2009a.
DICIONÁRIO DE MOÇAMBICANISMOS: [Disponível em www.mocambicanismos.blogspot.com/2009/01/m.html acesso em 8/11/2011.]
FIRMINO, G. A questão lingüística na África pós-colonial: O caso de português e das línguas autóctones em Moçambique. Maputo: Promédia, 2001.
FIDALGO, M. Mia Couto fala sobre a literatura de Moçambique e de sua relação com as palavras. [Disponível em: www.saraivaconteudo.com.br/Entrevistas/Post/45036  acesso em:17 out 2012.]
GONÇALVES, P.   Dinâmicas do Português em Moçambique: Afinal, o que são erros do português. In Primeiras Jornadas de Língua Portuguesa. Maputo: UEM, 2005.
GONÇALVES, P.  Português de Moçambique : Uma variedade em formação. Maputo: Livraria universitária da Faculdade de Letras/Universidade Eduardo Mondlane, 1996b.
GONÇALVES, P.   Falsos sucessos no processamento do input na aquisição de L2: Papel da ambiguidade na génese do português de Moçambique. In ABRALIN, v.4, nº1 e 2, 2005. pp. 47-73.
GONÇALVES, P.   Lusofonia em Moçambique com ou sem glotofagia? Comunicação apresentada no 2º Congresso Internacional de Linguística Histórica. São Paulo: USP (07-/02/2012).[Disponível em: www.catedraportugues.uem.mz/lib/docs/lusofonia_em_mocambique.pdf acesso em 21/set/12].
GONÇALVES, P.   Panorama Geral do Português de Moçambique. In Persee, v.79, nº79-3, Ministère de l'Enseignement Supérieur et de la Recherche, 2001, pp.977-990. [Disponível em: www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rbph_0035-0818_2001_num_79_3_4557  acesso em 14 de nov 2012].
GONÇALVES, P. ; MACIEL, C. A. Estruturas de subordinação na aquisição do português língua segunda. In______. Mudanças do português de Moçambique. Maputo: Livraria Universitária,1998.
NGUNGA, A. A Intolerância linguística na escola moçambicana. In Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da FFLCH. São Paulo: USP, 2007. [Disponível em: www.rumoatolerancia.fflch.usp.br/node/2184 acesso em 21 de maio 2010.]
NGUNGA, A. Interferências de línguas moçambicanas em português falado em Moçambique. In Revista Científica da Universidade Eduardo Mondlane. 2012. v.1, Nº 0 (ed. Especial.), pp.7-20. [Disponível em: www.revistacientifica.uem.mz/index.php/seriec/article/view/15/28 acesso em 7 de dez/2012].
STROUD, C. e GONÇALVES, P. (orgs.). Panorama do português oral de Maputo: Objetivos e métodos. In Cadernos de Pesquisa do INDE, nº 22, Maputo: INDE., 1997.
TIMBANE, A. A.  A problemática do ensino da língua portuguesa na 1ª classe  num contexto sociolinguístico urbano: O caso da cidade de Maputo. 2009.106pp. (Dissertação Mestrado em Linguística)- Faculdade de Letras e Literatura, Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 2009.
TIMBANE, A. A.   O português moçambicano: Um olhar sobre os neologismos em cartas de opinião e em obra de Mia Couto. São Paulo: USP, 2011. (No prelo na Revista do Congresso Internacional da Neologia-CINEO).
TIMBANE, A. A.   Os estrangeirismos e os empréstimos no português falado em Moçambique. In Via Litterae. Anápolis. v. 4, n. 1, p. 5-24, jan./jun. 2012. [Disponível em:  www2.unucseh.ueg.br/vialitterae acesso em 17/out/2012.]
CÁTEDRA PORTUGUÊS LÍNGUA SEGUNDA E ESTRANGEIRA (CPLSE). Observatório de Neologismos do Português de Moçambique. [Disponível em : http://www.catedraportugues.uem.mz/?__target__=observatorio&page=busca  e http://www.catedraportugues.uem.mz/?__target__=observatorio acesso em 14/mar/2012]
Gonçalves, P. Panorama do português de Moçambique. In Revue belge de philologie et d’histoire. v.79, nº79, nº3, 2001. [Disponível: http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rbph_0035-0818_2001_num_79_3_4557]
APONTES, S. A. Acomodação de palavras bantu em português: Algumas consequencias morfofonológicas. In Revista Philologus. Ano 16, Nº46, Rio de Janeiro: CiFEFil, Jan-abr. 2010. [Disponível em: http://www.filologia.org.br/revista/46sup/05.pdf acesso em 4/Jan/2013].

*NB: Maria Relva é o apelido (alcunha) de uma gramática tradicionalista que era usada nas escolas no período colonial. O autor é José Maria Relvas. Os alunos eram obrigados a memorizar as regras gramaticais e a repetir as frases previamente elaboradas. Não se aceitava analisar frases fora dessa gramática. Segundo Neves (2009) o ensino da gramática é importante na escola, mas também “não pode ser oferecida como uma camisa-de-força, primeiro mapeada para depois ser recheada de exemplos, aqueles que venham a calhar para a doutrina assentada.” (NEVES, 2009, p.85, grifo meu).


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AINDA SOBRE PRECONCEITO LINGUÍSTICO

OUTRA CARTA DE OPINIÃO PUBLICADA EM 2012, NO JORNAL "NOTÍCIAS"

UMA BREVE ANÁLISE DOS ERROS DO "NOSSO" PORTUGUÊS

SR. DIRECTOR!

O português, assim como muitas outras línguas, são o resultado da transformação, ao longo dos séculos, de um outro idioma, o latim, que era falado no Lácio, região da Península Itálica, onde ficava a antiga cidade de Roma. Assim, o português nasceu do latim vulgar (sermo plebeius), uma das três variedades da língua romana.

Esta é também conhecida como a “língua de Camões” (em homenagem a uma das mais conhecidas figuras literárias de Portugal), o autor de Os Lusíadas.

Ora bem, ao analisarmos o uso desta língua pela qual nos comunicamos diariamente, verificamos constantemente erros crassos e que são uns atropelos verdadeiramente mortais aos tímpanos de quem a ouve. É uma questão inevitável: que haja erros. Mas é insustentável que esses erros passem despercebidos àqueles que têm algum domínio da língua, cometendo o grandessíssimo erro de não corrigir aos errados. Sincera e tristemente falando, não é admissível que um locutor de rádio ou apresentador de televisão diga tera e não terra, guera enquanto deveria dizer guerra. A pergunta é: como é feita a selecção para que se ocupe um determinado posto? Acredito que a maioria de nós já sabe qual é a resposta óbvia.

A ideia não é, obviamente, de dar aulas da língua portuguesa, mas sim de tentar alertar e/ou sugerir aos profissionais, aos educadores e até ao Governo, a investirem mais na educação dos seus filhos, comprando livros de gramática e juntos aumentarem os seus conhecimentos gramaticais: tanto na escrita, como na fala. Lembro-me que no tempo da escola primária cometia-se um erro que parecia normal dizer: “Vamos comer festa”. Os nossos pais corrigiam-nos imediatamente, e, ao aprender, também corrigíamos a outras crianças.
Mas hoje em dia, se é o pai a dizer ao filho: “filho, estão te a chamar com a tua mãe” ou então “amim me disseram com Benjamim”, o que será que o filho irá transportar de aprendizagem em relação à língua portuguesa? Certamente que os mesmos erros cometidos pelo pai, que de noite frequenta a faculdade.
Muitos dos que ocupam altíssimos cargos nas diversas instituições do nosso país e auferem salários gordos, digo francamente que o seu português é bastante magro e como exemplo disso são os documentos pobres que assinam sem verificarem o seu conteúdo, sem sequer corrigir a péssima escrita dos seus subordinados directos. Quantas (muitas) vezes não nos envergonhamos com as fraquinhas intervenções dos nossos deputados, que (alguns) não sabem ler e nem demonstram nenhuma capacidade de improviso quando se engasgam e muito menos possuem poder de expressão. É simplesmente triste.

Todos os dias observamos nos nossos canais televisivos publicidades com erros absolutamente anormais, como por exemplo: Você. Segmento tem um significado totalmente diferente de seguimento.

Vamos investigar, vamos ler mais do que lemos, e, se não o fizemos, é hora de começar. Para que o país desenvolva é necessário que haja uma comunicação sã e para que isso aconteça é também necessário que haja um esforço por parte de todos aqueles que têm crianças e/ou adolescentes sob seus cuidados, para que se expressem melhor (na escrita e na leitura). É incrível que mesmo os mais estudados conseguem descaradamente cometer erros inadmissíveis e num à vontade, um professor perguntar aos seus alunos:…
 a gente estávamos a falar de quê? Já não se respeita a concordância frásica nos dias de hoje. Não vamos desestruturar os nossos filhos, as nossas crianças. Elas não merecem os atropelos que, de anormais já passaram a ser “normais”. O português está a ser terrivelmente esmagado, desrespeitado. São poucas mensagens (telefónicas e não só) que respeitam à escrita devida. Como se pode, em pleno século XXI, alguém com mais de 30 anos de idade poder escrever: os meus alunos estam doentes…???

O mais ridículo ainda são os ditos novos “cantores” e não os cantores novos. Depois de tudo que muitos de nós fomos e somos obrigados a ouvir, digo com quase toda certeza, que não existe nenhuma censura nas letras dos meninos que se põem a abrir as suas bocas para nada dizer:… você danças muito bem. Por onde andam os pais para corrigi-los? Antes de gravar algo, não perguntam aos outros seus amigos de “profissão” ou especialista de língua se está bem? É uma febre que se espalha pela nossa sociedade. É lamentável, mas contornável, se depender somente do nosso esforço pela leitura e escrita.  
  • Rui Mendes

Jornal Notícias 7 de dezembro de 2012.

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